As ruínas da Mina de São Domingos
Gosto de ruínas*. Há nelas qualquer coisa que ao mesmo tempo me comove e me fascina. No fundo, elas são o espelho de nós próprios, os humanos: da nossa sociedade, do nosso declínio físico, da nossa memória. Nas ruínas, há beleza e decadência, atracção e angústia. As ruínas emocionam-me.

As ruínas da Mina de São Domingos são um dos meus locais favoritos em Portugal. É um sítio tão bonito, tão fora deste mundo que fico espantada quando alguém me diz que não conhece (ou até que nem sabe da sua existência). É verdade que eu mesma só ouvi falar delas e as visitei quando já era adulta. Mas isso foi na era pré-internet e pré-mil-e-um-canais-de-televisão-e-mil-e-uma-revistas-portuguesas-de-tudo-e-mais-alguma-coisa. Hoje, no séc. XXI, na era da informação, é difícil perceber como tanto do nosso riquíssimo património cultural e paisagístico continua semi-desconhecido.

Mina de São Domingos é uma localidade situada 17 km a leste de Mértola, numa das mais bonitas zonas do nosso Baixo Alentejo. A aldeia merece só por si uma visita, sobretudo pela lindíssima praia fluvial – mas disso falarei um dia destes. Embora na aldeia existam algumas ruínas de estruturas, nomeadamente das oficinas ferroviárias, e uma enorme cratera cheia de água (a corta) carregada de minérios, exposta entre camadas de rocha colorida, além de um Centro de Documentação e da exposição permanente na Casa do Mineiro, o local mais interessante encontra-se cerca de 3 km a sul, na Achada do Gamo. Existe uma estrada de terra batida que nos leva até lá, mas a sinalização não é famosa e não é fácil dar com o acesso logo à primeira, por isso na dúvida o mais seguro é perguntar o caminho a alguém que por ali ande.

A exploração mineira do depósito pirítico de São Domingos remonta ao primeiro milénio a.C e desde essa altura ocorreu em vários períodos ao longo do tempo. A última fase teve início em 1854 e durou até 1966, período durante o qual a empresa britânica Mason & Barry extraiu do local mais de 20 milhões de toneladas de minério. Ali foram instaladas uma das primeiras linhas férreas do país (ligando a mina ao Pomarão, onde se fazia o escoamento do minério por via fluvial pelo Guadiana) e a primeira central eléctrica do Alentejo. Após a falência da Mason & Barry em 1968, o património edificado que restou foi abandonado e vandalizado, e tem vindo progressivamente a dissipar-se. Classificado em 2013 como Conjunto de Interesse Público, espera-se que seja mais cedo ou mais tarde posto em marcha um plano de recuperação ambiental e eventual reconversão do local, mas ainda está tudo numa fase bastante incipiente. Até lá, enquanto as ruínas não desaparecerem completamente ou não forem transformadas (ou o local vendido para qualquer outra coisa, quem sabe…), vamos tendo a sorte de poder usufruir deste lugar com um ambiente tão especial.


O percurso até à Achada do Gamo, quase todo em solo árido e passando junto a alguns pontos de água e zonas rochosas, tudo “pintado” com as tonalidades mais invulgares, é já uma amostra do que nos espera mais à frente. A meio do caminho, do outro lado de um curso de água, vê-se o que resta do centro de britagem e queima da Moitinha. Até que surgem ao longe, do lado esquerdo, os vultos irregulares de duas torres com aspecto alienígena, e sabemos que estamos a chegar.




É difícil descrever toda a impressão que causa aquele lugar. A aridez, as cores, o vento – e o silêncio. Sobretudo o silêncio. Apenas se ouve o som da terra pisada pelos nossos passos, e esporadicamente o piar de uma ave muito ao longe. Ali é terra-de-ninguém, contaminada, onde rara vegetação cresce e que os animais evitam. Edifícios meio desfeitos, extirpados, estruturas expostas, os tons da pedra manchados pela ferrugem, o cinzento do solo declinado desde o quase branco até ao negro-carvão. Das várias vezes em que já lá estive, nunca vi vivalma.









As fotos não conseguem fazer jus ao lugar. É preciso ir lá, estar lá. Sentir a atmosfera. perdermo-nos entre as ruínas. Chamar pelo outro, e nada ouvir em resposta a não ser o som do vento – e mesmo esse soa abafado. Estamos debaixo de uma cúpula, ou noutro planeta. Estamos noutro mundo.






*Se também são, como eu, apaixonados por ruínas, vejam este blogue maravilhoso.
Fonte: Fundação Serrão Martins
Outros posts sobre o Alentejo:







Conheço e é um lugar fantástico. Fui lá há uns 15/20 anos e a lembrança que tenho corresponde inteiramente às fotos que publicas.
Por acaso não passaste no cemitério dos ingleses?
Já lá fui várias vezes, a primeira talvez também há uns 20 anos ou mais, e o lugar mantém-se realmente quase inalterado. Nunca visitei o cemitério dos ingleses e é a primeira vez que ouço falar disso, agora deixaste-me curiosa 🙂
É um cemitério tipicamente inglês que está completamente em ruínas. Já não me recordo bem da localização mas tenho ideia que dá se viam as ruínas das minas “do alto”.
Reza a história que a terra do cemitério veio da Inglaterra pois os ingleses queriam ser enterrados em terra oriunda do seu país.
Muito interessante. Tenho de ir pesquisar mais sobre esse assunto, para quando lá voltar. Obrigada e um beijinho!
Gostei muito. Parabéns
Do post ou das ruínas? ;-))))
Obrigada!
Gostava de lá ir mas perdoe a minha ignorância: existe qualquer perigo para a saúde pública ao contactar com este ambiente diferente?
Também achei estranho a estrada de alcatrão acabar junto à aldeia de Montes Altos (vi no Google Maps). Depois é só terra, confirma?
Não há perigo nenhum, a contaminação que ainda existe é apenas no solo e nas águas, devido aos minérios presentes. Aliás, se houvesse perigo a área estaria obrigatoriamente encerrada.
O acesso à Achada do Gamo não é por Montes Altos, é mesmo pela aldeia da Mina de S. Domingos, passando entre as ruínas que lá existem (das oficinas ferroviárias e outras estruturas) – só que recentemente essa estrada esteve fechada para obras, e para aceder era necessário dar a volta por trás do campo de futebol (andámos meio às aranhas e tivemos de perguntar o caminho, mas não é difícil). E a estrada é sempre de terra batida, assim que se sai da aldeia.
Mais informação no CEMSD Centro de Estudos da Mina de S. Domingos. viewer/index.html?appid=75dcd3723bc04d6b 99c9c79808f55554
Quase tudo sobre a história da Mina e arredores com ligação ao complexo mineiro.
http://cemsd.minadesdomingos.com/
Mapa virtual.
http://www.arcgis.com/apps/OnePane/basic
Muito em breve com muito mais informação.
António Pacheco
Obrigada!
Saudades de fazer essa caminhada até a achada e ver essas ruínas…
Também já lá não vou há algum tempo.
Está na hora de voltar 😉