Viajar (sem sair de casa) em tempos de pandemia
Não sei se convosco sucede o mesmo, mas desde há uns dias que me sinto como que a viver num filme – e um daqueles com um mau argumento. O inconcebível está de facto a acontecer e não sabemos como nem quando vai terminar. É verdade que o Covid-19 não dizima populações inteiras em poucas horas, e até se manifesta de forma relativamente suave na grande maioria dos casos (parece que não é pior que uma gripe), mas também é verdade que a velocidade do contágio e a ferocidade com que ataca e mata as pessoas mais fragilizadas é fora do comum. Os profissionais que trabalham na área da saúde estão preocupados, muitos até mesmo assustados, e têm toda a razão para isso porque são quem luta na linha da frente desta espécie de guerra contra um inimigo invisível e ainda praticamente desconhecido. Vivemos tempos estranhos e difíceis.
Já estou em casa, em isolamento voluntário, há alguns dias. Sou uma sortuda. Tenho uma profissão que me permite fazer o meu trabalho à distância sem perturbações e sou colaboradora numa empresa que, conscienciosamente, está a fazer a sua parte e em poucos dias colocou toda a gente a trabalhar a partir de casa. O frigorífico e a despensa têm comida suficiente para uns dias – e sim, a (única) embalagem de papel higiénico que está no armário chega para as necessidades nos tempos mais próximos. É provável que amanhã precise de sair para comprar pão e talvez ovos, mas será saída por entrada e de certeza que não vou encher carrinhos de compras. Vivo sozinha, não pertenço ao grupo de risco e se tudo correr bem e não tiver sido contagiada antes de entrar em isolamento, talvez passe por esta crise sem ser infectada e, mais importante ainda, sem infectar ninguém.
Aquilo que andamos há anos a tentar evitar será o que nos vai manter activos e com alguma sanidade mental nestas semanas. A interacção humana que tanto prezamos e defendemos é agora totalmente desaconselhada. A actividade física e a vida ao ar livre que contribuem para a nossa saúde estão severamente limitadas – e muito em breve o simples acto de sair à rua será certamente condicionado. Os telefones, os computadores, a rádio e a televisão são agora os nossos melhores amigos, pois são eles que nos permitem falar com as pessoas que amamos, trabalhar, estar informados, distrair o cérebro, e até fazer compras. A vida está virada do avesso.
Viajar é quase criminoso, até mesmo interdito para certos destinos. Só daqui a algum tempo conheceremos a dimensão do impacto económico negativo que isto vai provocar. Provavelmente alguns países e regiões passarão incólumes por esta pandemia, mas não serão muitos. Não há como fazer previsões para o futuro.
Apesar deste cenário cinzento, há que manter a esperança e pensar positivo. Tal como muitos de vocês, tive de cancelar planos de viagem, e se a situação actual se prolongar não tardarei muito a começar a sentir falta de outros horizontes que não as paredes brancas da casa ou o panorama que vejo das janelas. Tenho por isso andado a pensar em formas de viajar sem sair de casa, e aproveitar este confinamento forçado para conhecer um bocadinho mais do mundo, ou voltar a saborear lugares por onde já passei. São estas ideias e sugestões que vou agora partilhar convosco.

Viajar através da leitura
Começo por uma das mais óbvias. Há milhares de livros que nos levam até aos cantos mais recônditos do mundo, seja através de crónicas de viagem pessoais, seja contando histórias que têm outras paragens como pano de fundo. E nem é preciso sair de casa para os comprar, todos eles estão à distância de uns quantos cliques. Eis aqui alguns:
Alain de Botton – A arte de viajar
Alexander McCall Smith – Agência nº 1 de mulheres detectives
António Carmona Rodrigues – O Rio Tejo (edição CTT)
Chimamanda Ngozi Adichie – Meio sol amarelo
Edmondo de Amicis – Constantinopla
Geoff Dyer – Areias Brancas
Gonçalo Cadilhe – A lua pode esperar; Nos passos de Magalhães
Jung Chang – A imperatriz viúva; Cisnes selvagens
María Dueñas – O tempo entre costuras
Naguib Mahfouz – Entre os dois palácios; O açucareiro; O palácio do desejo
Paul Theroux – Comboio-fantasma para o Oriente; Viagem por África

Ouvir música do mundo
Abençoados YouTube, Soundcloud, Spotify e outros que tais, que nos permitem ter acesso a sonoridades com que não estamos familiarizados e podemos passar horas a descobrir. Ouvir certos tipos de música transporta-nos imediatamente para ambientes longínquos. Estes são alguns websites que nos abrem portas para outros mundos.
https://www.accuradio.com/world-music

Documentários que nos levam a viajar
Há-os de todos os géneros e para todos os gostos, sobre a natureza e a vida selvagem, sobre pessoas, narrados na primeira pessoa ou sem uma única palavra. Alguns são verdadeiras maravilhas cinematográficas, outros comovem-nos até à medula, todos são garantia de minutos ou horas bem passadas.

Conhecer danças tradicionais
A dança faz parte da cultura de todos os povos, intimamente ligada à música mas com aspectos próprios muito especiais, que nos levam a descobrir uma outra faceta de cada país ou região. Estão associadas às celebrações e aos rituais, e geralmente à alegria, algo de que estamos particularmente a precisar nesta altura.

Filmes com cenários deste mundo
Há filmes que além de nos entreterem com uma boa história, despertam em nós uma vontade enorme de ir conhecer os locais onde foram rodados. Alguns dos que estão nesta lista (que é apenas uma amostra, claro) são já considerados clássicos, mas será sempre um prazer revê-los.
África minha (Quénia), de Sydney Pollack
Antes do amanhecer (Viena), de Richard Linklater
Antes do anoitecer (Paris), de Richard Linklater
As bonecas russas (São Petersburgo, Moscovo, Paris, Londres), de Cédric Klapisch
A vida secreta de Walter Mitty (Islândia), de Ben Stiller
O amor é um lugar estranho (Tóquio), de Sofia Coppola
O caminho (Caminho de Santiago), de Emilio Estevez
O caso Thomas Crown (Nova Iorque, Martinica), de John McTiernan
Sideways (Califórnia), de Alexander Payne
Skyfall (Istambul, Glencoe, Xangai), de Sam Mendes
Um chá no deserto (Marrocos, Argélia), de Bernardo Bertolucci
Um bom ano (Provença), de Ridley Scott
Vicky Cristina Barcelona (Barcelona, Avilés, Oviedo), de Woody Allen

Museus virtuais muito reais
Há centenas de museus que disponibilizam grande parte do seu espólio para visualização na net, por vezes com explicações bem interessantes sobre cada peça. Não sendo o mesmo que ver ao vivo, temos a vantagem de podermos observar cada uma ao nosso próprio ritmo e sem as confusões habituais de tantos museus. Deixo aqui alguns exemplos, mas há muitos mais para descobrir.
Museu Nacional de Arte Antiga
(e podem encontrar links para outros museus e monumentos portugueses no site da DGCP)
Gallerie degli Uffizi (Florença)
Victoria & Albert Museum (Londres)
Guggenheim Museum (Nova Iorque)

Provar novos sabores
Mais tempo em casa significa mais tempo para dedicar a actividades para as quais nem sempre temos muita disponibilidade no nosso dia-a-dia “normal”. Porque não tentar cozinhar refeições diferentes? Não falo de paella, lasanha ou caril, que já se tornaram habituais nas nossas casas, mas sim de ir mais longe e experimentar receitas típicas a que não estamos acostumados e cujos sabores nos vão evocar viagens que já fizemos ou queremos fazer. E assim também se varia um pouco do bife com batatas fritas…
Costa Rica: Gallo Pinto
Índia: Frango Tikka Masala
Geórgia: Khachapuri
Grécia: Moussaka
Hungria: Goulash
Israel: Falafel
Líbano: Kibbeh
Moldávia: Mămăligă
Peru: Ceviche
Rússia: Pelmeni
Tailândia: Pad Thai
Uzbequistão: Plov

Aprender outras línguas
Agora é também uma boa altura para aperfeiçoar os nossos dotes linguísticos – esta pandemia de coronavírus há-de passar e aí poderemos regressar às viagens com um pouco mais de “bagagem” para nos fazermos entender em países estrangeiros. O inglês será evidentemente a língua que vai sempre ser preciso falar melhor, mas nada nos impede de ficar com umas noções de outras linguagens. Há na net imensos recursos que podem ajudar-nos.
Site da BBC para aprender inglês
33 ways to speak better English without taking classes
100 Mostly Small But Expressive Interjections
Um dicionário com palavras em várias línguas
Ficheiros áudio para download com vocabulário em várias línguas

Guardar memórias
Quando foi que deixámos de ter álbuns de fotografias? Eu sei que ocupam espaço e se enchem de pó, mas há alguma coisa melhor do que desfolhar as páginas de um álbum onde colámos imagens, bilhetes e folhetos dos sítios que visitámos? É quase como voltar lá de novo. Podemos fazer o álbum em vez de o comprar já feito, decorar as folhas ao nosso gosto, escrever pequenas notas sobre cada local – enfim, dar largas à criatividade. Há muitos tutoriais de scrapbooking com centenas de ideias e instruções para aprender a fazer vários tipos de álbuns. Depois é só deixar a imaginação à solta.

Previsivelmente, temos pela frente um mês ou mais em que deveremos ficar em casa o máximo de tempo possível – seja por obrigação de quarentena ou por isolamento voluntário. Será mais fácil para uns do que para outros, mas todos temos a responsabilidade social de não ficarmos doentes e, se isso acontecer, de não contagiarmos os outros. É uma questão de solidariedade, que inclui também outras responsabilidades: não disseminar informação que não vem de fontes fidedignas (anda para aí muita desinformação…); ter o bom senso de não espalhar o pânico, sem contudo cair no extremo oposto de menosprezar a gravidade da situação; manter o espírito positivo e o bom humor (em vez de entupir as redes sociais com comentários disparatados, estúpidos, sem conteúdo e fora do contexto, desmoralizadores e etc.); ajudar os outros tanto quanto as nossas capacidades o permitem.
E confiando que isto é apenas uma fase, porque não aproveitar para fazer planos para as próximas viagens? Pesquisem aqui no blogue os destinos de que já tenho falado, e vejam no separador “ligações” (no fundo da página) outros blogues onde vão encontrar informações sobre tudo o que precisarem de saber.
Têm mais ideias para viajar a partir do sofá? Sugestões para acrescentar às minhas? Partilhem nos comentários, que nesta altura todas as ideias são bem vindas 🙂
No Grupo da página no Facebook publico todos os dias mais ideias para #viajarsemsairdecasa.
Já seguem o Viajar Porque Sim no Instagram? É só clicar aqui ←







Isso é que foi uma boa maneira de passar o tempo. Umas boas horas a preparar este roteiro magnífico, para gáudio de muitos que ficam com a papinha feita. Parabéns, boa colectânea e já agora, boa reclusão.
Bom dia!
É verdade, ainda foram umas horitas jeitosas, serviu para me distrair e manter “produtiva” durante o fim-de-semana. E acaba por ser serviço público – não tenho competências para poder salvar vidas, cantar nem no banho (coitados dos vizinhos…) e não toco nenhum instrumento, mas se este post ajudar alguém a aguentar um pouco melhor o período difícil que se prevê estar a chegar, então já contribuí com alguma coisa.
Obrigada pelo apoio e bom isolamento também, se for o caso
Muito obrigado pelo excelente post com ideias fantásticas para viajar (ou sonhar que estamos a viajar)!
E obrigada pela visita
Adorei o post!!!! Muito e muito obrigada pela partilha.
Iremos todos sair bem deste pesadelo, haja fé.
Beijinho
Obrigada, Cátia! Espero que gostes também das sugestões. E sim, espírito positivo acima de tudo, o ser humano é muito resiliente e os portugueses sabem bem o que é passar por maus bocados.
Beijinhos
Há uma outra alternativa muito boa ás opções que apresentou aí. Nós já estamos há algum tempo a pensar nela, mas o Coronavírus (para o bem e para o mal) fez-nos finalmente decidir pô-la em prática. Se ficar curiosa, amanhã iremos falar da origem de um provérbio mas fica o convite para ver a iniciativa que vamos começar na 5a feira que vem.
Obrigada! Estou curiosa, sim, e vou ficar atenta 🙂
Olá e muito obrigada pelas excelentes dicas. São de facto tempos conturbados, mas conseguimos dar a volta se quisermos! Afinal, quem nunca quis ficar em casa quando o despertador toca? Vamos aproveitar esse sentimento.
Bem, eu não me queixei, pois não?
Adoro trabalhar em casa, e bem preciso de dormir mais.
Claro que isto é só uma fase, e vai acabar por passar. Mas os custos, sobretudo os humanos, estão a ser muito elevados. Não sou pessimista, mas não dá para ignorar a realidade. Vamos ter esperança em que passe depressa.
Obrigada pela visita e pelo apoio
Muito obrigada por este post, verdadeiro serviço de utilidade pública!!! Numa altura em que nos sentimos assoberbados por tanta informação dispersa, aqui encontramos um grande leque de opções, que nos ajudam a superar estes tempos difíceis. Excelente trabalho!! Obrigada mais uma vez!
Obrigada eu pela visita ! Foi precisamente isso que me levou a publicar este post, e fico contente por saber que está a ser útil. Entretanto tenho descoberto outras coisas igualmente interessantes, que vou postando no grupo da página no Facebook. Tudo para que ninguém possa queixar-se de aborrecimento

muito interessante articolo ,obrigado por copartilhar conosco